Em comemoração ao Dia Mundial dos Oceanos, A Tribuna preparou uma entrevista especial para a data

 

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Hoje, vemos lixo sendo descoberto em profundidades e animais com toneladas de plástico no estômago (Foto: Divulgação)

 

Limpo, saudável, previsível, seguro, produtivo, acessível e explorado de forma sustentável. Mais do que uma lista de desejos, essas são as metas que as Nações Unidas traçaram para a Década dos Oceanos, que entra em vigor a partir de 2021. O nome, na verdade, é um pouquinho maior: Década da Ciência Oceanográfica para o Desenvolvimento Sustentável.

Ele exprime não só a preocupação das nações (que aprovaram a iniciativa) com a atual situação de degradação, como também sinaliza o quanto ainda desconhecemos sobre esse ambiente. “O oceano ainda é uma nova fronteira, que, se por um lado cobre 71% do globo, ainda não exploramos sequer 5% dele”, explica o professor Ronaldo Christofoletti, do campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Christofoletti é um dos 30 cientistas brasileiros, dentro de um total de 558 pesquisadores de dezenas de países, responsável por elaborar o relatório sobre o atual estado dos oceanos para a ONU. Aqui, ele explica um pouco do trabalho que está sendo feito, os desafios e as ações que acontecerão até o fim do ano, inclusive em Santos, em prol dos oceanos e da qualidade devida de todos.

O que já se sabe sobre a atual situação dos mares?

Os oceanos são responsáveis pelos maiores benefícios já obtidos pela sociedade humana. A maioria dos produtos envolvidos no nosso bem-estar vem dos mares, seja por meio de substâncias da flora e da fauna que geram revolucionários fármacos, sejam por questões culturais.

Do ponto de vista da degradação, o que mais preocupa?

O lixo e o uso exacerbado dos recursos marinhos, que compromete a saúde de todos. Esse é um conceito que precisa ser destacado. Não existe a nossa saúde, a saúde dos oceanos ou outras. Não são situações separadas. Poluir os oceanos é poluir a nossa vida.

Nesse trabalho, o que mais chama a sua atenção?

As oportunidades.

As oportunidades que o oceano pode nos oferecer?

Também, mas nesse caso me refiro às imensas oportunidades que temos para construir um futuro diferente, para trabalhar em rede, independentemente de qualquer barreira. Essa construção ainda está ao nosso alcance.

Depende do quê?

O cidadão precisa se envolver mais e a Década dos Oceanos é um convite a isso. No passado, diante da imensidão oceânica, imaginava-se que o que era jogado no mar, desaparecia. Hoje, o que vemos é o lixo sendo descoberto nas profundidades mais abissais e baleias, por exemplo, com toneladas de plásticos no estômago.

Nesse sentido, o que está programado ainda para este ano no Brasil sobre o tema oceano?

Temos três grandes eventos, um deles aqui em Santos. O primeiro, promovido pela Fundação Grupo Boticário, acontece no Museu do Amanhã, em 3/9, no Rio de Janeiro, envolvendo cientistas e jornalistas e, em novembro, ainda no Rio, mas em data não definida, a Unesco reúne cientistas para discutir o Atlântico Sul. Dessa reunião começarão a sair as metas a serem perseguidas durante a Década dos Oceanos.

E o evento em Santos?

Será em setembro, quando a cidade, em parceria com a Unifesp e a Unesco, será a sede do lançamento do Ocean Literacy, um documento em formato de cartilha, sobre como falar sobre os oceanos.

Qual a expectativa de todos os cientistas para a Década dos Oceanos?

Temos a chance de construir algo diferente, crucial para a nossa qualidade de vida. Mas para isso é preciso mudar já o nosso comportamento. Não podemos, por exemplo, apenas esperar pelo Poder Público. Depende de cada um de nós. É uma grande chance de ao invés de apontar as falhas nos outros, somar esforços e todos juntos construir um futuro que, neste momento, está sob ameaça.

Comendo plástico

Usado e descartado incorretamente, o plástico é hoje um enorme problema de saúde pública. Estima se que 10 milhões de toneladas acabem no mar todos os anos. O Brasil seria o 16º maior contribuinte entre 192 países com território à beira-mar. Em Santos, estudo feito pelos biólogos do Aquário concluiu mais de 50% das tartarugas tratadas no parque ingerem plástico.

Mais recentemente, um estudo feito por cientistas canadenses afirma que, por ano, cada ser humano ingere até 121 mil partículas plásticas, sendo que as crianças ingerem até 81 mil pedacinhos ao ano.

Qual o impacto disse na saúde humana? A ciência ainda não sabe. O que se pode dizer é que os microplásticos, hoje encontrados em todo o planeta, não vêm sozinhos: no mar, eles atraem todo sorte de poluentes e microorganismos, que acabam entrando na cadeia alimentar marinha e, desta, para os seres humanos.

Insustentável

No passado, diante da imensidão oceânica, imaginava-se que o que era jogado no mar, desaparecia. Hoje, o que vemos é o lixo sendo descoberto nas profundidades mais abissais e baleias, por exemplo, com toneladas de plásticos no estômago.

Atividades

Neste sábado (8) é o Dia Mundial dos Oceanos e em Santos, pelo terceiro ano consecutivo, acontece o Festival Santos pelo Oceano, um evento que reúne, no Aquário, das 9h às 14h, várias atividades durante toda amanhã deste sábado. No mar, haverá uma quadra de polo aquático e um circuito com 1.500 metros para os praticantes de natação, standup, vela, caiaques e canoas. E no jardim, na saída do Aquário, atividades para toda a família: teatro infantil, exibição de música com os jovens do Arte no Dique, distribuição de sacolas retornáveis e gibis educativos do Aquário, orientações sobre compostagem com a equipe do Jardim Botânico Chico Mendes e até uma Casa Sustentável, um espaço com 50 metros quadrados para exibição de diversas tecnologias. Além disso, o público também poderá conferir várias exposições nas tendas de parceiros como o ICMBio, Instituto de Pesca, Unisanta, Unisantos, Unifesp, Santos Lixo Zero, Instituto Mar Azul, Oxigênio Criativo e Laje Viva entre outros. O acesso é gratuito.

Agende-se:

Sábado (8)

Aquário

❚ 9h às 14h: 3º Festival Santos Pelo Oceano

Canal 6

❚ 9h: Mutirão de limpeza, Instituto Mar Azul

Domingo (9)

Parque Roberto Mário Santini

❚ 9h30: Mutirão de limpeza, ONG Ecomov

Museu do Café

❚ 15h30: Roda de Conversa – Patrimônio Cultural e Ambiental, com Marcela Calixto, Daury de Paula Junior, Marcos Libório e Ronaldo Christofoletti. Mediação do jornalista Marco Santana

 

 

Fonte: A Tribuna, Junho/2019 (https://www.atribuna.com.br)

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