revista economia 0801

Projeto contará com recursos de R$ 23,8 milhões em cinco anos, oriundos da Fundação, iniciativa privada e Estado.


O Pescado para a Saúde será tema de pesquisa aplicada realizada pela Universidade de São Paulo (USP), em co-execução com o Instituto de Pesca (IP-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, aprovada em 22 de dezembro pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Ao todo, o projeto contará com recursos de R$ 23,8 milhões em cinco anos, sendo que a agência de fomento à pesquisa cientifica fará o aporte de R$ 3,65 milhões no projeto, que contará ainda com a participação de universidades e instituições governamentais do Brasil e do exterior. Participam ainda da iniciativa empresas privadas do Brasil, Estados Unidos, Holanda, Dinamarca e França que farão aporte de mais R$ 6 milhões. O Estado investirá outros R$ 14,2 milhões na forma de infraestrutura e divulgação dos resultados, além de bolsas e salário dos servidores. Confira podcast sobre o assunto no Spotify SoundClound.

O projeto será articulado em um Núcleo de Pesquisa Orientada a Problemas em São Paulo (NPOP-SP), no âmbito do edital Ciência para o Desenvolvimento da FAPESP, que busca resolver problemas e desafios enfrentados pelo Estado por meio da pesquisa aplicada. Além do NPOP com a participação do IP, outros dois Núcleos serão criados no âmbito da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo. São eles: NPOP-IAC, sediado pelo Instituto Agronômico e que trabalhará com biotecnologia em citros, cana e café, e o NPOP-BIS, sediado pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), voltado a ingredientes saudáveis. Os recursos para as três iniciativas somam R$ 93,4 milhões, sendo cerca de R$ 10,8 milhões da FAPESP, R$ 14,4 milhões da iniciativa privada e R$ 68 milhões do Estado, incluindo as infraestrutura e salários.

De acordo com o professor da USP, Daniel Lemos, líder do projeto, o pescado é um alimento de alto valor nutricional e que pode ajudar a combater um importante problema enfrentado pelo Brasil e o estado de São Paulo: a obesidade e suas consequentes implicações de saúde. Cerca de 50% da população adulta brasileira está acima do peso e 15% é tida como obesa. Em São Paulo, 45% das crianças e adolescentes estão com sobrepeso ou obesidade infantil, segundo levantamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo em parceria com o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clinicas da USP e a LetinMed Editora em Saúde.

Apesar de o pescado ser um alimento estratégico para enfrentar a má nutrição, tendo em vista seu alto valor nutricional e baixo índice de gordura, esses alimentos ainda são pouco consumidos no Brasil, se levado em conta todo o país e não regiões específicas, como a amazônica, e as diferenças socioeconômicas e culturais da população. “O consumo de pescado, seja ele oriundo da pesca ou produzido por meio da aquicultura, traz diversas vantagens do ponto de vista nutricional para a população. O que queremos fazer é promover melhorias por meio de resultados de pesquisa científica e conscientizar as pessoas de que esse alimento pode ser superior as proteínas cultivadas de forma terrestre”, afirma Lemos.

Para vencer os desafios do fomento ao consumo do pescado por meio da pesquisa aplicada, os integrantes do projeto focarão suas ações na análise de mercado, análise nutricional e contaminantes e a contribuição atual para o suprimento de nutrientes, análise nutricional de duas espécies da aquicultura e de rações e o aprimoramento do perfil nutricional das espécies por meio do uso de dietas dos peixes e de técnicas de processamento, podendo trazer maior acesso ao pescado pelo mercado consumidor ou por meio de mercados institucionais como a merenda escolar.

“Também desenvolveremos pesquisas focadas em marcadores genéticos e estudos de ampla associação de genomas relacionados a produtividade e qualidade nutricional. Outro ponto importante é a comunicação, fundamental para conscientizar os consumidores quanto aos benefícios do consumo desses alimentos. Para essa conscientização, o Museu de Pesca do IP, localizado em Santos, terá papel muito relevante, já que ele é a principal atração turística da cidade e tem potencial de levar conhecimento, para diferentes faixas etárias”, afirma Vander Bruno dos Santos, diretor do Instituto de Pesca.

O NPOP Pescado para a Saúde terá como Instituição Sede a USP. O Instituto de Pesca e a Universidade de Mogi das Cruzes serão instituições co-executoras. Participam também da iniciativa, a Secretaria de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Abastecimento e Pecuária (MAPA), além das empresas Polinutri Alimentos S.A., Neogen Ltda, Phileo by Lesaffre (França), Veramaris (Holanda), AquaHana LLC (EUA), BioMar (Dinamarca), Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag), Global Peixe e Guabi, que atuam na cadeia produtiva de ração, genética e prestação de serviços. O desenvolvimento do projeto contará ainda com Albert G J Tacon, consultor da FAO, que detém atuação em vários países no tema, e que será pesquisador visitante.

Apesar do alto potencial do país no setor, brasileiro ainda consome pouco peixe e frutos do mar

De acordo com Lemos, o projeto tem potencial para transformar a produção e o consumo de pescado no Estado e em todo país. “Queremos seguir o que foi feito com o frango, que no passado era um alimento caro e hoje é acessível e muito consumido no Brasil, que é inclusive um grande exportador desse tipo de carne”, afirma o pesquisador da USP.

Atualmente, o Brasil ocupa os últimos lugares no ranking de consumo de pescado no mundo. “Apesar do enorme potencial do país nesse setor, importamos cerca de 30% do pescado que consumimos. Este projeto busca mudar essa realidade, pois vamos focar nas necessidades dos consumidores, dos cidadãos paulistas, para que eles entendam a importância desse alimento e passem a ter condições de consumi-lo mais”, explica Lemos.

Para o diretor do Instituto de Pesca, a junção de esforços entre instituições de pesquisa, governo e iniciativa privada, proposta no edital da FAPESP, traz grandes perspectivas para que os problemas levantados pelos pesquisadores sejam solucionados. “Se trabalhássemos de forma separada, dificilmente conseguiríamos alcançar todos esses objetivos. O grande diferencial desse projeto é a integração entre as instituições e as empresas com vistas a inovação. Isso tem que ser cada vez mais incentivado, para trazermos soluções para toda a população”, afirma.

 

Fonte: Revista Economia S/A, 05 janeiro 2021 (http://revistaeconomia.com.br/fomento-ao-consumo-de-pescado-para-alimentacao-mais-saudavel-e-tema-de-proposta-inedita-aprovada-pela-fapesp/)